Duchamp
revisitado
A Arte se alimentando da Arte
Por Nesta
exposição, a arte se alimenta da arte. Apresento uma experiência
de absoluta antropofagia, onde utilizo fragmentos “duchampianos”
como
objeto de reflexão estética e conceitual da própria arte,
para criar um diálogo atemporal e arqueológico entre o
passado e o presente.
É um projeto de imersão e desconstrução poética da obra
de Marcel Duchamp.
Dialogar e recriar o instigante universo desse artista,
foi um grande desafio e ao mesmo tempo, é fascinante, prazeroso
e muito divertido, pois faço um recorte da sua produção,
de forma lúdica, leve e bem-humorada.
As referências que utilizo nesses trabalhos exploram as
fronteiras do tempo e da memória. Desenvolvo diálogos e
faço releituras das principais obras de Duchamp, considerado
um dos maiores artistas de todos os tempos. Suas obras
são “símbolos de transgressão” que habitam o imaginário
do mundo das artes, representam um marco da história da
arte e estão ainda muito em pauta, atualmente.
A herança de Duchamp é fundamental nesse meu processo criativo.
Eu me “aproprio” dos seus principais ícones e a eles se
somam referências da minha própria produção, das minhas
pinturas da série Signografia arqueo-urbana, que recontextualizo
nesses diálogos e releituras. É um verdadeiro encontro
com as memórias afetivas que fazem parte da minha formação
artística, onde aconteceram linhas cruzadas com outros
grandes mestres.
A ideia foi recriar e recontextualizar alguns dos ícones
“duchampianos”, possibilitando o surgimento de novas “obras
rebeldes” e de cenas improváveis, trazendo um novo olhar.
Assim, ao produzir obras híbridas, repletas de poesia visual,
aprofundo a compreensão conceitual das próprias obras de
Duchamp. Num processo que busca desconstruir, ainda mais,
a desconstrução “duchampiana”. As obras vão se sucedendo,
desenrolando-se em metáforas visuais. O visitante atento
pode encontrar as inúmeras relações entre o âmago das obras
expostas e o grande Mestre.
Na produção deste conjunto de obras, utilizo artes integradas
e técnicas híbridas (pintura formal, objeto, instalação,
assemblage, fotografias e intervenção digital).
Vale lembrar que, muito desse legado de Duchamp, tem ficado
restrito aos intelectuais, historiadores, críticos em geral
e, infelizmente, longe do grande público.
Através deste projeto, busco favorecer essa aproximação
do público com o pensamento “duchampiano”. É uma oportunidade
de as pessoas verem ou revisitarem seus conceitos de uma
forma nova, criativa, irreverente e com humor... Duchamp
para todos!
“Caro Duchamp, entre você e eu
existe um século de rupturas e um mesmo eterno desejo de
transgressora rebeldia”.
Waldo Bravo
H7, Série Imersões
Digigrafia sobre vinil - 80 x 80 cm
(Allegoria dell'Inclinazione, 1615 - Artemisia Gentileschi)
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Duchampianiz-ações
Marcel Duchamp ocupa um lugar único na história da arte ocidental. Ele foi o
seu ponto de inflexão. Mudou a sua história deslocando
seu eixo do visível para o invisível, do material para
o imaterial, do físico para o espiritual.
Há, portanto, duas histórias da arte ocidental: uma que
antecedeu Duchamp e outra que teve o seu início com ele.
Razão pela qual nunca se estima suficientemente a sua importância
nesse domínio da cultura no nosso meridiano.
A produção de Duchamp é contemporânea das grandes guerras
mundiais. Período da eclosão dos movimentos dadaísta, cubista,
surrealista, expressionista. Todos eles imersos no tempo
do “desencantamento do mundo”, como o chamou Max Weber
(1) – conceito inspirado no campo da religião e que se
estendeu à vida social e cultural ocidental.
Se o desencantamento do mundo enformava toda a cultura
do período, também já estava em curso o que Karl Marx definiu
como desmanche de tudo o que era sólido e sagrado. Era
a modernidade se constituindo e globalizando velozmente
toda a sua imensa complexidade.
De fato, ao designar esse período histórico enormemente
transformador, a definição se tornou paradigmática. O que
levou Marshall Berman a escrever: “Ser moderno é fazer
parte de um universo no qual, como disse Marx, “tudo que
é sólido desmancha no ar” (2).
Ora, já em 1917, Duchamp se antecipava a essa desmaterialização
do mundo ao apresentar sua obra “A Fonte”. Ela desconcertou
o mundo da arte e este não mais pode se reconcertar depois
dela.
Zygmunt Bauman (3) chamou essa fase de “modernidade sólida”
em contraposição à “modernidade líquida”. Embora esta última
já estivesse operando em um mundo desencantado, desmanchando
ao mesmo tempo os sólidos no ar, a absoluta liquidez das
relações sociais, econômicas, culturais, éticas, identitárias
e amorosas somente ganharia plena visibilidade a partir
dos anos 1960.
Duchamp prenunciava a modernidade líquida com as suas obras
muito antes dela se disseminar globalmente. Ao destituir
de valor a materialidade da obra e ao instituir o conceito
no seu lugar, ao dessacralizá-la a ironizando, ao fazer
do pensamento e não da coisa o suporte da arte desde os
anos 20 do século passado, ele se antecipava em muito na
transição da modernidade sólida para a modernidade líquida.
Esta, completamente desenvolvida com o advento da internet
e das mídias sociais em rede.
A obra de Waldo Bravo é uma obra da modernidade líquida.
E, como tal, é herdeira e tributária da obra de Marcel
Duchamp.
Como disse acertadamente Amanda Pontes (4) sobre a arte
e sobre os artistas pós Duchamp, “Tudo o que foi feito
desde então e o que é feito até hoje, ... todos eles devem
alguma coisa e estão de certa forma ainda respondendo à
Fonte de Marcel Duchamp”.
Bravo não é apenas consciente desse vínculo compulsório,
ele o desvela, amplifica e ilumina. Se essa herança está
implícita nas obras dos artistas contemporâneos, na atual
obra do Bravo ela é explicitada, estudada, comentada, decodificada
e recodificada.
Desenvolvida no Hemisfério Sul, a de Waldo Bravo é uma
obra do Novo Mundo. Este, não submetido às atrocidades
das grandes guerras e ao desencantamento do mundo tal qual
ocorreu nos países centrais. A obra Duchampiana frutificou
numa época em que a cultura dominante desmanchava no ar,
ao passo que o mundo em desenvolvimento lutava para consolidar
suas economias, suas sociedades, suas identidades culturais.
E, no entanto, Bravo produziu a sua dentro da modernidade
líquida do mundo globalizado.
Talvez sejam essas razões espaciais e históricas – pressupostos
tácitos na obra do Bravo – que fazem do seu diálogo com
Duchamp uma abordagem repleta de encantamento com o mundo
da arte, reencantando, portanto, o mundo.
Embora, em parte, líquida na forma (apresentada no mundo
virtual), esta exposição duchampiana da obra do Bravo prima
pela consistência dos signos, dando a eles grandiosidade
e imponente materialidade visual. Tudo com muito primor,
requinte e veneração.
De fato, Bravo converte os ícones da obra de Duchamp em
símbolos. Isto quer dizer que os ícones em que a história
transformou as imagens das obras do mestre, são elevados
à universalidade, ganham amplitude, são tornados marcos,
senão verdadeiros emblemas.
São esses emblemas os trabalhados por Bravo. Esta operação
de converter ícones em símbolos corresponde a transformar
significados em significantes, mudando sua temporalidade
da sucessão para a duração, convertendo conteúdos em formatos
disponíveis para a comunicação. É usar os signos como unidades
de uma linguagem.
Para esse propósito, Bravo se serve principalmente dos
recursos de TRANSMUTA-AÇÕES: Ícones recriados (desconstruÍdos.
deformados, transformados); FU-SÕES: Dúplices (juncão de
duas obras, dois artistas, dois tempos); IN-SERÇÕES: Ícones
recontextualizados no espaço (diversos, abertos ou fechados).
I-MERSÕES: Ícones inseridos no tempo (na história da arte).
As categorias divididas em duas pelos hífens, apontam para
a dupla ação do artista ao tratar os símbolos duchampianos:
as ações de as presentificar como imagens icônicas ao mesmo
tempo em que as expõem universalizadas como símbolos.
Dupla é também a pedagogia dessa exposição: a primeira
é a de que toda arte visual após Duchamp é arte conceitual.
A outra é a de que pode haver grande esplendor visual numa
mostra intelectual.
Antonio Carlos Fortis
antropólogo
(1) Weber, Max. Ciência e Política. Duas Vocações, S. Paulo, Cultrix, 1985.
(2) Berman, Marshall. Tudo que é Sólido Desmancha no Ar,
S. Paulo, Cia das Letras, 1986
(3) Bauman, Zyqmunt. Modernidade Líquida, R. de Janeiro,
Zahar, 2000.
(4) Pontes, Amanda. Marcel Duchamp e a Fonte: A obra de
arte mais importante do século 20, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=QSeyrTkXejg.
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