Duchamp Revisitado. A Arte se alimentando da Arte


E67b, Série Transmuta-ações
Digigrafia sobre lona sintética - 90 x 160 cm

 


Video Youtube


B78, Série In-serções - Tinta acrílica e serigrafia sobre papel - 3 x 6 metros


B81, Série Transmuta-ações
Tinta acrílica s/tela e flores de seda - 120 x 90 cm


 

 


B74, Série Transmuta-ações
Tinta acrílica sobre tela - 80 x 100 cm


E55b, Série Transmuta-ações
Digigrafia sobre lona sintética - 80 x 80 cm




 


E80 / E77, Série Transmuta-ações - Instalação
Objetos em aço, fioss sintéticos e bolas em resina
76 x 55 x 55 cm



E105, Série In-serções - Digigrafia sobre lona sintética - 61 x 220 cm



E47b, Série Transmuta-ações
Digigrafia sobre lona sintética - 80 x 80 cm

 

B80, Série Transmuta-ações
Tinta acrílica s/tela e tecido vermelho - 120 x 90 cm

E81, Série Transmuta-ações
Digigrafia sobre lona sintética - 130 x 130 cm


 

E82, Série Transmuta-ações
Digigrafia sobre lona sintética - 80 x 80 cm

E88, Série Transmuta-ações - Digigrafia sobre lona sintética - 90 x 160 cm



E66, Série Transmuta-ações
Digigrafia sobre lona sintética - 80 x 120 cm



 

E91, Série Transmuta-ações
Digigrafia sobre lona sintética - 80 x 120 cm


E89, Série Transmuta-ações
Digigrafia sobre lona sintética - 80 x 80 cm


 

E92, Série Transmuta-ações
Digigrafia sobre lona sintética - 80 x 120 cm



E102, Série Transmuta-ações
Digigrafia sobre lona sintética - 80 x 80 cm


 

E103, Série Transmuta-ações
Digigrafia sobre lona sintética - 130 x 130 cm



E86, Série Transmuta-ações
Digigrafia sobre lona sintética - 80 x 80 cm




 

E104, Série Transmuta-ações
Digigrafia sobre lona sintética - 110 x 110 cm

Duchamp revisitado
A Arte se alimentando da Arte

Por Nesta exposição, a arte se alimenta da arte. Apresento uma experiência de absoluta antropofagia, onde utilizo fragmentos “duchampianos” como objeto de reflexão estética e conceitual da própria arte, para criar um diálogo atemporal e arqueológico entre o passado e o presente.

É um projeto de imersão e desconstrução poética da obra de Marcel Duchamp.

Dialogar e recriar o instigante universo desse artista, foi um grande desafio e ao mesmo tempo, é fascinante, prazeroso e muito divertido, pois faço um recorte da sua produção, de forma lúdica, leve e bem-humorada.

As referências que utilizo nesses trabalhos exploram as fronteiras do tempo e da memória. Desenvolvo diálogos e faço releituras das principais obras de Duchamp, considerado um dos maiores artistas de todos os tempos. Suas obras são “símbolos de transgressão” que habitam o imaginário do mundo das artes, representam um marco da história da arte e estão ainda muito em pauta, atualmente.

A herança de Duchamp é fundamental nesse meu processo criativo. Eu me “aproprio” dos seus principais ícones e a eles se somam referências da minha própria produção, das minhas pinturas da série Signografia arqueo-urbana, que recontextualizo nesses diálogos e releituras. É um verdadeiro encontro com as memórias afetivas que fazem parte da minha formação artística, onde aconteceram linhas cruzadas com outros grandes mestres.

A ideia foi recriar e recontextualizar alguns dos ícones “duchampianos”, possibilitando o surgimento de novas “obras rebeldes” e de cenas improváveis, trazendo um novo olhar.

Assim, ao produzir obras híbridas, repletas de poesia visual, aprofundo a compreensão conceitual das próprias obras de Duchamp. Num processo que busca desconstruir, ainda mais, a desconstrução “duchampiana”. As obras vão se sucedendo, desenrolando-se em metáforas visuais. O visitante atento pode encontrar as inúmeras relações entre o âmago das obras expostas e o grande Mestre.

Na produção deste conjunto de obras, utilizo artes integradas e técnicas híbridas (pintura formal, objeto, instalação, assemblage, fotografias e intervenção digital).

Vale lembrar que, muito desse legado de Duchamp, tem ficado restrito aos intelectuais, historiadores, críticos em geral e, infelizmente, longe do grande público.

Através deste projeto, busco favorecer essa aproximação do público com o pensamento “duchampiano”. É uma oportunidade de as pessoas verem ou revisitarem seus conceitos de uma forma nova, criativa, irreverente e com humor... Duchamp para todos!

“Caro Duchamp, entre você e eu existe um século de rupturas e um mesmo eterno desejo de transgressora rebeldia”.

Waldo Bravo


H7, Série Imersões
Digigrafia sobre vinil - 80 x 80 cm
(Allegoria dell'Inclinazione, 1615 - Artemisia Gentileschi)

 

 

 

 

Duchampianiz-ações

Marcel Duchamp ocupa um lugar único na história da arte ocidental. Ele foi o seu ponto de inflexão. Mudou a sua história deslocando seu eixo do visível para o invisível, do material para o imaterial, do físico para o espiritual.

Há, portanto, duas histórias da arte ocidental: uma que antecedeu Duchamp e outra que teve o seu início com ele. Razão pela qual nunca se estima suficientemente a sua importância nesse domínio da cultura no nosso meridiano.

A produção de Duchamp é contemporânea das grandes guerras mundiais. Período da eclosão dos movimentos dadaísta, cubista, surrealista, expressionista. Todos eles imersos no tempo do “desencantamento do mundo”, como o chamou Max Weber (1) – conceito inspirado no campo da religião e que se estendeu à vida social e cultural ocidental.

Se o desencantamento do mundo enformava toda a cultura do período, também já estava em curso o que Karl Marx definiu como desmanche de tudo o que era sólido e sagrado. Era a modernidade se constituindo e globalizando velozmente toda a sua imensa complexidade.

De fato, ao designar esse período histórico enormemente transformador, a definição se tornou paradigmática. O que levou Marshall Berman a escrever: “Ser moderno é fazer parte de um universo no qual, como disse Marx, “tudo que é sólido desmancha no ar” (2).

Ora, já em 1917, Duchamp se antecipava a essa desmaterialização do mundo ao apresentar sua obra “A Fonte”. Ela desconcertou o mundo da arte e este não mais pode se reconcertar depois dela.

Zygmunt Bauman (3) chamou essa fase de “modernidade sólida” em contraposição à “modernidade líquida”. Embora esta última já estivesse operando em um mundo desencantado, desmanchando ao mesmo tempo os sólidos no ar, a absoluta liquidez das relações sociais, econômicas, culturais, éticas, identitárias e amorosas somente ganharia plena visibilidade a partir dos anos 1960.

Duchamp prenunciava a modernidade líquida com as suas obras muito antes dela se disseminar globalmente. Ao destituir de valor a materialidade da obra e ao instituir o conceito no seu lugar, ao dessacralizá-la a ironizando, ao fazer do pensamento e não da coisa o suporte da arte desde os anos 20 do século passado, ele se antecipava em muito na transição da modernidade sólida para a modernidade líquida. Esta, completamente desenvolvida com o advento da internet e das mídias sociais em rede.
A obra de Waldo Bravo é uma obra da modernidade líquida. E, como tal, é herdeira e tributária da obra de Marcel Duchamp.

Como disse acertadamente Amanda Pontes (4) sobre a arte e sobre os artistas pós Duchamp, “Tudo o que foi feito desde então e o que é feito até hoje, ... todos eles devem alguma coisa e estão de certa forma ainda respondendo à Fonte de Marcel Duchamp”.

Bravo não é apenas consciente desse vínculo compulsório, ele o desvela, amplifica e ilumina. Se essa herança está implícita nas obras dos artistas contemporâneos, na atual obra do Bravo ela é explicitada, estudada, comentada, decodificada e recodificada.

Desenvolvida no Hemisfério Sul, a de Waldo Bravo é uma obra do Novo Mundo. Este, não submetido às atrocidades das grandes guerras e ao desencantamento do mundo tal qual ocorreu nos países centrais. A obra Duchampiana frutificou numa época em que a cultura dominante desmanchava no ar, ao passo que o mundo em desenvolvimento lutava para consolidar suas economias, suas sociedades, suas identidades culturais. E, no entanto, Bravo produziu a sua dentro da modernidade líquida do mundo globalizado.

Talvez sejam essas razões espaciais e históricas – pressupostos tácitos na obra do Bravo – que fazem do seu diálogo com Duchamp uma abordagem repleta de encantamento com o mundo da arte, reencantando, portanto, o mundo.

Embora, em parte, líquida na forma (apresentada no mundo virtual), esta exposição duchampiana da obra do Bravo prima pela consistência dos signos, dando a eles grandiosidade e imponente materialidade visual. Tudo com muito primor, requinte e veneração.

De fato, Bravo converte os ícones da obra de Duchamp em símbolos. Isto quer dizer que os ícones em que a história transformou as imagens das obras do mestre, são elevados à universalidade, ganham amplitude, são tornados marcos, senão verdadeiros emblemas.

São esses emblemas os trabalhados por Bravo. Esta operação de converter ícones em símbolos corresponde a transformar significados em significantes, mudando sua temporalidade da sucessão para a duração, convertendo conteúdos em formatos disponíveis para a comunicação. É usar os signos como unidades de uma linguagem.

Para esse propósito, Bravo se serve principalmente dos recursos de TRANSMUTA-AÇÕES: Ícones recriados (desconstruÍdos. deformados, transformados); FU-SÕES: Dúplices (juncão de duas obras, dois artistas, dois tempos); IN-SERÇÕES: Ícones recontextualizados no espaço (diversos, abertos ou fechados). I-MERSÕES: Ícones inseridos no tempo (na história da arte).

As categorias divididas em duas pelos hífens, apontam para a dupla ação do artista ao tratar os símbolos duchampianos: as ações de as presentificar como imagens icônicas ao mesmo tempo em que as expõem universalizadas como símbolos.

Dupla é também a pedagogia dessa exposição: a primeira é a de que toda arte visual após Duchamp é arte conceitual. A outra é a de que pode haver grande esplendor visual numa mostra intelectual.

Antonio Carlos Fortis
antropólogo

(1) Weber, Max. Ciência e Política. Duas Vocações, S. Paulo, Cultrix, 1985.
(2) Berman, Marshall. Tudo que é Sólido Desmancha no Ar, S. Paulo, Cia das Letras, 1986
(3) Bauman, Zyqmunt. Modernidade Líquida, R. de Janeiro, Zahar, 2000.
(4) Pontes, Amanda. Marcel Duchamp e a Fonte: A obra de arte mais importante do século 20, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=QSeyrTkXejg.