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Dicotomias
Por ELVIRA VERNASSCHI* - 1996

A arte de Waldo Bravo tem a ver com afinidades simbólicas. O ser humano está no centro de sua preocupação.

Neste momento de seu fazer artístico, o domina a questão da ancestralidade e contemporaneidade.

Na pintura propõe, a par da discussão em torno de signos arqueológicos reminiscência de buscas da civilização pré-colombiana, ainda em sua aldeia onde viveu a sua infancia, no Chile - , uma desvelação de códigos urbanos - traços e retraços grafitados em velhos muros/paredes, encantatórios, do grande centro urbano, São Paulo.

Nesta instalação, em antiga Capela do Morumbi, a dicotomia prossegue. Ele propõe para nossa reflexão, questões essenciais sobre a existência: a vida e a morte - “uma não existe sem a outra”. Utiliza uma gigantesca gravura, como mural. Em lugar dos signos arqueológicos e urbanos, ele estampa uma ossada humana, com repetição de crânios, principalmente. Estampessência da morte? Questionamento da vida? Reflexão sobre a crueza de uma cidade, onde o bruto do homem vem a tona com muita facilidade?

Ou, discussão sobre a vida: “a morte é renascer”. Sobre os crânios estão desenhadas bonecas, dados, estilingues, sorvetes, referencias ao mundo infantil, à criança, símbolos do princípio da vida. A vida é nosso bem mais precioso? Corrobora, um totem composto por bichinhos de pelúcia, encerrados em um vidro, imponentemente colocado no topo de uma coluna de luz.

Espalhadas pelo chão, um outro ícone sobre a criança, as bolas, de todos os tamanhos e cores, aqui manipuláveis (ou não?), se quisermos atingir o muro das caveiras..

Todos nós, observadores, adultos e crianças, diante de um objeto que nos desnuda em nossa própria essência. O artista discute sobre as dicotomias, princípio e fim. São uníssonos. Estão ligados de forma umbilical. É preciso pensar sobre.

*Elvira Vernaschi é Coordenadora do Dpto. de Difusão Cultural / Exposições Temporárias no Museu de Arte Contemporânea da USP.
Membro da ABCA - Associação Brasileira de Críticos de Arte