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Cidades Imaginadas
Por LISBETH REBOLLO GONÇALVES* - 2010

A cidade tem se tornado um dos suportes preferenciais das mais variadas poéticas. Esse fato ganha cada vez maior relevância no debate estético que cerca o cotidiano das grandes metrópoles. As manifestações artísticas contemporâneas reafirmam a concepção de cidade multifacetada, porque em meio das múltiplas possibilidades de uso de materiais, espaços e tempos, rua e arte não se separam. Somente um pensamento univer
salista permite encarar a cidade no seu sentido polissêmico. Esse novo conceito de cidade vem abrindo espaço para o imaginário. Não é mais admissível que o traçado urbano limite-se apenas a princípios econômicos ou funcionais. Hoje em dia, é imprescindível considerar o imaginário que move seus habitantes e usuários.
A exposição Cidades Imaginadas com curadoria de Sylvia Werneck traz ao público do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo o olhar de artistas que exploram questões estéticas envolvendo a cidade. Esta é a terceira mostra que se faz, na atual gestão administrativa do MAC USP, com o tema da realidade urbana: Radiografias da Cidade aconteceu em 2007, construindo um diálogo entre o pintor, Gregório Gruber, e o fotógrafo, Bruno Giovanetti; Street Art, em 2008, apresentou, no MAC USP, a prática do Graffiti, sob a curadoria de Fábio Magalhães e Vittorio Sgarbi. Em 2010, Cidades Imaginadas descreve, com diferentes meios e modos de expressão, o exercício estético de três artistas: Hélcio Magalhães, Jonathas de Andrade e Waldo Bravo. Cada um deles elege uma via original para sua elaboração artística, quando recolhem dados do cotidiano citadino e, em disposições originais, re-significam aspectos de sua realidade e estimulam o nosso envolvimento perceptivo. Suas obras evocam memórias individuais e coletivas, reminiscências de tempos e espaços fluídos, criando um território de códigos apropriados da trama urbana. Enfim, a mostra Cidades Imaginadas nos remete a constatação de que metáforas e atributos inerentes à urbanidade (incluindo, a cultura, a ética e o bem estar geral do cidadão), hoje, são de grande importância para sua organicidade.
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*Lisbeth Rebollo Gonçalves é Diretora do MAC - Museu de Arte Contemporânea de São Paulo

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Cidades Imaginadas 
Por SYLVIA WERNECK* - 2010

Uma cidade
abriga infinitos mundos dentro de si. Não apenas em seu aspecto físico, de múltiplas arquiteturas, contornos e fluxos, mas também pelo que fazem dela seus habitantes, transformando-a de acordo com suas convicções, hábitos e paixões . Há a dimensão do real, o que de fato existe e é visível a toda gente e as dimensões percebidas, sonhadas, imaginadas, que por sua vez influenciam a primeira e lhe atribuem múltiplos significados. Como definir a cidade? Qual destas inúmeras materialidades ou percepções afetivas possíveis seria sua melhor tradução?
Waldo Bravo faz sua ode à metrópole por ele adotada circulando entre o revelar e o esconder. Há uma cidade que se faz invisível justamente por ser visível – a paisagem diária que desaparece entre a pressa para tomar o ônibus e o cansaço depois de mais um dia. Essa imagem cotidiana escondida pelo hábito ressurge sobrepondo-se ao que antes era propaganda. Em outra série, os ícones da metrópole paulistana escondem-se em impressões distorcidas, só podendo ser decifrados quando se estabelece uma relação literalmente próxima com a imagem, que só se revela por seu reflexo no espelho.


*Sylvia Werneck é Curadora adjunta do MAC - Museu de Arte Contemporânea de São Paulo

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Cidades Imaginadas 
MARIA HIRSZMAN
Entrevista para o Jornal O Estado de São Paulo - Janeiro / 2010

Maria Hirszman - Você poderia me descrever um pouco o trabalho que você vai apresentar, inserindo-o no contexto de sua produção mais geral?

Waldo Bravo - Serão apresentados dois conjuntos de trabalhos: o primeiro conjunto é formado por registros da Intervenção “Recortes Urbanos”, acontecida nas ruas de São Paulo em 2004. Serão várias imagens fotográficas no tamanho de 1 x 2 metros, além de um valioso registro em vídeo dessas intervenções no qual será possível ver em movimento o diálogo construído entre a paisagem real e a paisagem representada.
A idéia dessa intervenção urbana foi criar uma interferência na paisagem da metrópole com uma imagem da mesma paisagem, gerando um questionamento na relação tempo-espaço-deslocamento do campo visual dessa paisagem.
Nesse caso, não existe autonomia da imagem. Elas não faziam nenhum sentido em outro local. As imagens de 27 m², fixadas em outdoors, dependiam do lugar específico e da relação com o observador.
As imagens, na sobreposição com as paisagens, provocavam seu auto-apagamento, a negação da imagem autônoma. Nesse momento, a presença e a ausência dessas imagens se confundiam.
Foi uma forma poética de restaurar fragmentos da paisagem urbana de São Paulo.
O segundo conjunto é formado por imagens e paisagens de ícones da cidade, as quais mediante processos digitais foram amplamente distorcidas, tornando difícil a sua identificação. Entretanto, esses trabalhos contêm um pequeno espelho situado nas bordas dessas imagens mostrando um outro território de representação, a imaterial dos reflexos.
O observador é convidado a procurar o ponto de vista ideal de observação para descobrir a representação imaterial da paisagem refletida no espelho.
O resultado é um estranhamento criado ao ter uma imagem real dialogando com seu reflexo.
O projeto põe lado a lado dois tipos de representação: a representação material-física (imagem digital deformada) e a representação imaterial (reflexo no espelho).
Nos últimos 10 anos tenho focado minhas pesquisas num território que eu resolvi chamar de “arte relacional”, que é o campo das obras de arte sem autonomia. Ou seja, formas de arte que de alguma maneira dependem de relações tempo-espaço-deslocamento promovida pelo observador para revelar ou completar essa mesma obra.

Maria Hirszman - De que forma a questão da cidade está presente no seu trabalho? A
fotografia é a linguagem por excelência desse tipo de reflexão estética sobre a paisagem urbana?

Waldo Bravo - Passei toda minha infância em Nirivilo, um micro-povoado de 200 habitantes na região central do Chile, e com 21 anos vim parar nesta mega metropolis. Esse percurso de vida tem me obrigado a refletir o tempo todo sobre o lugar donde vivemos. As questões autobiográficas sempre têm sido a base do meu processo criativo, desde o inicio.
Historicamente, a fotografia tem funcionado bem quando falamos de reflexão estética da paisagem urbana, ainda mais agora com a poderosa imagem digital, entretanto não podemos deixar de lado a linguagem do vídeo, a qual também da conta do recado de forma espetacular.

Maria Hirszman - Na sua opinião, quais foram os critérios de seleção dos artistas
presentes na exposição? Você vê alguma sintonia entre seu trabalho e o dos dois outros artistas presentes?

Waldo Bravo - A meu ver, os critérios de seleção dos artistas convidados foram a observação da singularidade e das poéticas visuais envolvidas em algum trabalho realizado anteriormente, tendo como foco a metrópole.
Penso que são essas as semelhanças entre os nossos trabalhos. A partir daí surgem profundas diferenças. Cada um de nós utiliza caminhos muito particulares para construir seu discurso visual sobre a metrópole, ampliando dessa forma a discussão sobre o tema.