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Auto-Apropriação como Exercício de Liberdade

Por KATIA CANTON* - 1998

Waldo Bravo está atingindo uma síntese.
Tal como num processo analítico, o artista resgata diferentes tempos vividos e passa seu trabalho em revista. O objetivo é libertar-se. Bravo opera releituras de trabalhos anteriores, redescobrindo neles um viés ou um rastro que ora passara despercebido.
Assim, a série Auto-Apropriações torna-se não apenas um exercício pós-moderno, de retomada da história, de investimento na memória. Na composição dos processos de releituras, Waldo Bravo livra-se dos excessos, retira e recontextualiza velhas molduras e, no processo, constrói verdadeiramente algo novo.
Na pesquisa central de seu trabalho, que acompanha o artista desde 1985, a construção de signografias dá corpo a uma obra onde texturas, ranhuras e traços soltos operam uma aproximação entre tempos e espaços opostos. Por um lado, os trabalhos evocam traçados de uma era primitiva, lembram a erosão de elementos da natureza, tomam a forma de notações de cavernas. Por outro, ligam-se à linguagem instantânea, migrante e violenta dos grafites característicos das cidades.
Há cerca de dois anos, a costura do tempo passado-presente e do espaço rural-urbano foi pespontada com novos discursos. A figuração surgiu na utilização de ícones aparentemente banais ou mundanos, que, retratados sobre esses fundos, produziria leituras inéditas, palimpsésticas.
Nas sobreposições, o artista construiu uma primeira síntese. Assim, ovos fritos, pepinos, bonecas, bananas, automóveis, discos voadores, folhas de maconha, cenouras recobriam, em grupos, partes das superfícies das telas em diferentes trabalhos.
Nas junções entre fundo e imagem, confrontos se radicalizam: a beleza sutil dos tons e texturas, as interferências sígnicas, que passeiam entre o status de anotação, garatuja e ruína, são invadidas pela obviedade e intromissão radical de ícones banais, que trazem a percepção de volta ao mundo cotidiano e consumista.
Nestas operações de embate, o artista constrói importantes comentários. Na grande instalação, realizada na Capela do Morumbi, em 1997, por exemplo, o artista uniu um fundo repleto de caveiras, com pinturas retiradas do universo infantil, unindo começo e final da vida.
Num outro tipo de síntese, Bravo constrói caixinhas de múltiplas memórias. São séries que sobrepõem aleatoriamente imagens de trabalhos realizados em tempos passados. Desse modo, retalhos de informações sofrem junções radicais e realizam cirurgias de sentido.
O uso do acaso na construção do trabalho artístico é uma arma poderosa. O coreógrafo e o músico norte-americanos, Merce Cunninguam e John Cage, por exemplo, revolucionaram processos de criação nos anos 50 e 60, com a introdução da aleatoriedade na construção de espetáculos. Adeptos do zen budismo, cada qual criou estratégias de composição que espelhavam uma construção não-induzida. Na criação de movimentos, Cunninguam, por exemplo, desenhava gestos individuais que eram “sorteados” e unidos seqüencialmente na criação de uma linha coreográfica. Cage compunha a trilha sonora para a dança livremente, sem saber do que se passava na dança. Seus métodos também levavam em conta procedimentos como o realizado para se consultar o livro chinês do I Ching.
No trabalho de Waldo Bravo, a câmera fotográfica, funcionando como uma espécie de id, vai registrando automaticamente trabalhos e sobrepondo as imagens recolhidas. A estratégia da surpresa se repete: o olhar, que se depara com trabalhos antigos, é radicalmente novo.
Historicamente, nesse momento, em que as identidades passam por intensas crises - geradas pela difusão da virtualidade -, história, memória e auto-referência passam a funcionar como um tripé de remissões para artistas contemporâneos, reincidindo no cardápio da chamada pós-modernidade.
Artistas como os norte-americanos Cindy Sherman ou Jeff Koons - a primeira utilizando-se como modelo de suas próprias séries de representações performáticas-fotográficas; Koons retratando-se em bustos de gesso, propagandas de exposições em que aparece fantasiado ou painéis fotográficos em que escancara sua própria vida sexual - celebrizaram-se pela estratégia da auto-referência. Outros, como Sherrie Levine, puseram-se a re-retratar obras de arte conhecidas, estabelecendo confrontos entre noções de cópia e original, imagem e after-image, originalidade e clichê.
Waldo Bravo opera num terreno intermediário. A auto-apropriação, em seu caso, não passa pelo uso da própria persona, como em Sherman ou Koons,mas simplesmente pelo trabalho. É seu próprio conjunto de obras, e não obras de outros, como em Levine, que são re-emolduradas, re-contextualizadas, mitificadas e, a seguir, desmitificadas, como diria Roland Barthes (1).
Em sua obra Mitologias, Barthes trabalha a noção de mito como linguagem. Para o pensador francês, mitos contemporâneos seriam discursos que garantem a objetos, acontecimentos e imagens produzidos pela cultura e balizados por um crivo histórico, adquiram um status de “natural”. O processo de mitificação ocorre quando esses objetos, acontecimentos ou imagens são descolados de seus contextos, esvaziados de seus aspectos ideológicos, culturais, sócio-econômicos, e congelados no tempo.
Bravo trabalha nos dois sentidos: mitifica suas obras, reapresentando-as em diferentes contextos. Ao mesmo tempo, desmistifica-as, propondo sobreposições e junções de imagens que obrigam o espectador a repensar sua procedência, suas molduras contextuais.
Na produção atual, há ainda uma terceira série de trabalhos que também operam uma síntese. São os livros-objetos.
Aqui, todo o repertório de imagens extraídas de seus próprios trabalhos, então resgatadas, juntadas, recuperadas e recontextualizadas, imagens mudanas, esquecidas nos trâmites cotidianos, nas operações ganham novos brilhos e tonalidades. Essas imagens, então, são tridimensionalizadas e depositadas em páginas, testemunhando, em seu conjunto, um livro de rastros visuais.
O espectador é assim, ao final, convidado a manipular todo o processo, a movimentar-se junto à revelação do mecanismo proposto pelas diversas sobreposições imagéticas do artista - eis a síntese da síntese.

*Katia Canton é curadora e crítica de arte, docente do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo.

1-Mythologies, de Roland Barthes, foi escrito e publicado inicialmente em 1957 (Paris, Editions du Seuil).