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Arqueologia da memória
Por WALDO BRAVO - 2002

Vivemos num momento de profundas transformações no território da arte e a gravura reflete com clareza esse momento.
Até poucas décadas atrás, os artistas basicamente utilizavam 5 procedimentos: gravura em metal, litografia, xilogravura, serigrafia e linóleo. Hoje, os artistas-gravadores têm a sua disposição um amplo leque técnico com mais de 50 procedimentos.
Essa evolução e crescimento tem sido possível graças as experimentações e pesquisas de alguns artistas que procuram respostas as suas necessidades, fazendo cruzamentos múltiplos, procurando rupturas, superando limitações e gerando acima de tudo uma enorme diversidade.
A gravura através do tempo já sobreviveu a algumas revoluções estéticas, atualmente enfrenta a revolução tecnológica, porém, em vez de ser sufocada pela tecnologia e por seus múltiplos procedimentos para processar a imagem, a gravura une-se a ela, incorporando com muita força a poderosa e generosa tecnologia dessas novas mídias.
Uma boa parte dos procedimentos atuais na arte, caracterizam-se pelo seu perfil múltiplo, “pós-tudo” e “mix-tudo”. A emancipação da gravura traz novas relações, mais abertas e sem fronteiras, com resultados híbridos e “contaminados”, frutos desses procedimentos interdisciplinares e de multimeios, nos quais fundem-se procedimentos tradicionais com novos.
Gravuras criadas a partir de plataforma digital (arquivo-matriz) circulando em disquete, Cd-Rom, na rede da Internet (Web-art, Ciberarte, Net Art) surpreendem pela sua rapidez, agilidade, versatilidade e poder de materialização.
Nos procedimentos tradicionais como o metal, lito ou xilo, as matrizes se desgastam ao tirar as cópias; quanto mais cópias, maior o desgaste da matriz, e com isso temos perda de detalhes e de qualidade. Já no suporte-matriz digital (numérico - vetorial) não existe nenhum tipo de perda nas cópias; digitalmente um número é sempre igual a outro número e isso permite infinitas cópias idênticas das nossas imagens.
Alem disso, a matriz digital, ao contrário da matriz convencional, pode transferir seu conteúdo para diversos suportes e com diversos tamanhos. Essa obra digital pode materializar-se e usar como suporte a tela de um monitor de computador, na Internet, numa enorme projeção digital num telão ou parede, num suporte sintético de qualquer tamanho desejado (vinil, poliéster, acrílico, etc.), numa tela, num papel, etc.: arte, ciência e tecnologia de mãos dadas!
Eu, particularmente, tenho grande interesse pelo campo experimental, porque nesse território a nossa relação com o tempo e com as nossas verdades sintoniza-se, atualiza-se, recicla-se, e acima de tudo, exercita-se diariamente o divino contato com a liberdade.
Utilizo a experimentação e o trabalho investigativo como ferramenta de evolução e crescimento. Não tenho interesse por rótulos nem tendências.
A produção serial, as gravuras e os múltiplos da presente exposição, são o resultado da utilização de linguagens e mídias integradas em procedimentos gráficos multidisciplinares de intervenção e manipulação de imagens, tendo como suportes-base os processos reprográficos e digitais, incluindo fotografia, processos fotomecânicos, mix-tipias, intervenção digital, intervenções mono-reprográficas, assemblagem, objeto, e técnicas mistas sobre imagens.
Os procedimentos que utilizo nesses trabalhos decorem sobre o tempo na medida em que obras antigas são revisitadas no presente, fazendo fusões de momentos diversos, gerando diálogos de um tempo circular. São trabalhos que exploram as fronteiras da memória e da temporalidade, criações que se alimentam da minha história e das minhas referências temporais. Essas retomadas me permitem o adensamento das minhas presentes poéticas.
As imagens inseridas - umas sobre outras - como interferências aleatórias e casuais de objetos vulgares e cotidianos, constroem uma narrativa de choque visual. Essas interferências de intromissão radical, e de invasão territorial, provocam novas leituras dos espaços ocupados pelo olhar, exigindo uma sensibilidade visual, um olhar mais consciente e atento, um diálogo capaz de transformar a imagem através de uma apreciação mais ampla e profunda. Integrando assim, imagem e espectador, e provocando revelações mútuas na conscientização dos limites visuais e das barreiras à percepção consciente.
As imagens sobrepostas que utilizo, não podem ser grandes para não virarem figura principal, nem muito pequenas para não virarem um detalhe insignificante. Não me interessa a imagem, como figura principal, e sim como contraponto de estranhamento entre uma imagem e outra, onde não existe a tradicional figura principal. O resultado é uma ambígua relação entre aquilo que é figura e aquilo que é fundo.
Algumas obras são uma espécie de gravura tridimensional, onde um espaço de alguns centímetros é inserido e incorporado entre as imagens criando um intervalo de memória temporal. Nesse caso, as imagens são reproduzidas em fachadas transparentes (memoriais), que ao mesmo tempo, escondem e revelam o segundo plano. Dependendo do ponto de vista do espectador, através dos planos de contemplação, obtém-se imagens mutáveis e transitórias.
A relação com as visualidades multidisciplinares no campo da gravura atual, solicita adequações e adaptações muito precisas, frente ao novo que questiona e provoca.